setembro 13, 2007

O Comboio do Monte e o elevador do Bom Jesus

Com a devida vénia ao Jornal da Madeira

Talvez não tenha sido por acaso que parte do material do Comboio do Monte, após os seu desmantelamento, tenha ido parar a Braga. Quem sabe o nome de Raul Mesnier Ponsard, engenheiro, possa ter alguma relação com essa viagem?

Muito se tem falado e escrito sobre o célebre comboio do Monte que, até 1943, resfolgou vapores pela Rua do Comboio, a caminho do Terreiro da Luta, transportando turistas e madeirenses.
Muitos são os que se interrogam para onde foi o material do comboio após o seu desmantelamento. Hoje, a "Olhar" mais do que levantar uma ponta do véu, lança um desafio a quem possa fornecer mais dados sobre o destino da "sucata" a que foi reduzido um dos mais populares meios de transporte de outros tempos no Funchal.

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Uma rua chamada Caminho de Ferro

O Comboio do Monte, também conhecido por elevador ou ascensor foi, sem sombra de dúvidas, um grande contributo para o desenvolvimento da freguesia do Monte, que viria a ser a mais conhecida estância turística da Madeira.
Os estudos para o Comboio do Monte foram feitos em 1886, pelo engenheiro Raul Mesnier Ponsard.
Apesar da relutância dos madeirenses em contribuir com capital para a formação da Companhia do Caminho-de-Ferro do Monte, o primeiro troço, entre o Pombal e a Levada de Santa Luzia, foi inaugurado a 16 Julho de 1893. A ideia para a construção de um elevador ou caminho de ferro partiu de António Joaquim Marques (de Lisboa), que obteve o consentimento da Câmara do Funchal em 17 de Fevereiro de 1887.
Com uma paragem à porta do Monte Palace Hotel, o comboio continuava até ao apeadeiro do Largo da Fonte, que era o fim da linha.
Mais tarde, a linha-férrea foi prolongada até ao Terreiro da Luta ficando, no total, com uma extensão de 3850 metros.

A explosão que "quase matou" o comboio

A 10 de Setembro de 1919 deu-se uma explosão na caldeira, de uma locomotiva, quando o comboio subia em direcção ao Monte.
Deste acidente resultaram 4 mortos e muitos feridos. Devido a este desastre, as viagens foram suspensas até 1 de Fevereiro de 1920. A 11 de Janeiro de 1932, aconteceu novo desastre, desta vez por descarrilamento. A partir de então, turistas e habitantes viraram as costas ao caminho de ferro, considerando-o demasiado perigoso. Aliando este facto à II Guerra Mundial, que se iniciou entretanto, verificou-se uma falta de turistas na Madeira e a Companhia do caminho de ferro entrou em crise; a última viagem do comboio realizou-se em Abril de 1943 e a linha foi logo desmantelada. Parte do material resultante do desmantelamento, nomeadamente os carris, foi para a sucata e parte foi utilizado na reparação do elevador do Bom Jesus, em Braga.

Do Funchal para Braga

O Elevador do Bom Jesus, é um funicular que liga a parte alta da cidade de Braga ao Santuário do Bom Jesus do Monte.
O elevador segue um percurso paralelo a uma escadaria monumental conhecida como Escadórios do Bom Jesus e termina na sua parte superior junto à estátua equestre de São Longuinhos.
O elevador funciona sobre uma rampa e é constituído por duas cabines independentes, ligadas entre si por um Sistema funicular.
O seu funcionamento baseia-se no sistema Contrapeso de Água. As cabines têm um depósito que é cheio de água, quando estão no nível superior, e vazio no inferior. A diferença de pesos obtida permite a deslocação. No elevador do Bom Jesus, a quantidade de água é calculada em função do número de passageiros que pretendem efectuar viagem em cada sentido.

Onde Mesnier aparece de novo

Inaugurado em 25 de Março de 1882, a sua construção foi iniciada em Março de 1880. O Elevador do Bom Jesus, em Braga, constituiu o primeiro funicular construído na Península Ibérica. A iniciativa da sua construção deveu-se ao empresário bracarense Manuel Joaquim Gomes (1840-1894) e a direcção do respectivo projecto foi do engenheiro suíço Niklaus Riggenbach. Este, que a partir do seu país natal enviava todas as indicações necessárias para a construção do Elevador, contou com a imprescindível colaboração técnica e prática do engenheiro português de ascendência francesa Raul Mesnier du Ponsard, que em Braga dirigiu a execução do projecto.
O Elevador do Bom Jesus é actualmente o mais antigo do mundo em serviço a utilizar o sistema de contrapeso de água.
O seu impacte foi de tal ordem que logo nesse mesmo ano, se constituiu em Lisboa a Companhia dos Ascensores, que convidou Raul Mesnier para projectar e instalar na capital uma série de elevadores — Glória, Bica, Santa Justa, etc —, uma parte dos quais ainda hoje se encontra em funcionamento.

Raul Mesnier Ponsard

Raul Mesnier Ponsard nasceu no Porto, São Nicolau, em 2 de Abril de 1848 e faleceu em Inhambane, Moçambique, em 1914. Português, de origem francesa, formou-se na Universidade de Coimbra em Matemática e Filosofia e na França em Engenharia Mecânica, percorrendo a Suíça e a Alemanha onde frequentou as principais escolas-oficina, contactando com os maiores projectistas e fabricantes de material ferroviário de transporte. Ficou conhecido por ter construído muitos elevadores, e funiculares em Portugal.
Como engenheiro de obras públicas foi projectista de sistemas de elevadores de transporte público em Braga (Elevador do Bom Jesus), Porto (Funicular dos Guindais), Lisboa (elevadores de Santa Justa, Glória, Bica, Lavra), Nazaré (Elevador da Nazaré) e do comboio do Monte, no Funchal.

Octaviano Correia

Publicado por João Carvalho Fernandes em setembro 13, 2007 03:12 PM
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